Vale a pena contratar um intérprete profissional?

Este vídeo chegou ao meu conhecimento pela colega Roberta Barroca, da Almavox. O vídeo envolve o Aldo, lutador brasileiro de MMA, e uma tradução literal, com uma história sobre um coveiro e s*x* a*a*. Oi? Sim, é isso o que acontece quando se resolve economizar na interpretação!

Tudo isso acontece no contexto de uma entrevista à imprensa, quando a intérprete do lutador foi ex-tre-ma-men-te infeliz na interpretação literal de uma expressão “impublicável” e deixa o jornalista completamente sem graça.  Confiram:

Para entendermos o caso, Aldo estava falando sobre o seu peso:

– Eu já sabia que estava no peso, já tinha feito a pesagem antes, mas como a gente estava falando ali, geralmente eu (me) finjo de morto pra c*** o c** do coveiro – exclama Aldo, sorridente.

A intérprete teria se dado melhor se tivesse apenas falado que o Aldo queria “esconder o jogo” para surpreender os adversários. Ela poderia ter falado: “he likes to play his cards to get ahead of the competition,” or “he likes to play dumb to fool the competitors“. Além disso, ao trabalhar no modo consecutivo, a intérprete poderia ao menos ter perguntado ao Aldo o que ele realmente quis dizer com uma expressão tão idiomática.

Moral da história: SEMPRE contrate  #intérpretes #profissionais para o seu evento, para não passar por esse mico…

Hoje, dia 5 de janeiro, estreia no Brasil Viva – A Vida é Uma Festa. A animação é sobre a vida de Miguel Rivera, um garoto mexicano de 12 anos, que sonha em ser músico. Ao longo da história, Miguel visita o mundo dos mortos, onde se conecta com o tataravô para realizar o grande sonho do garoto de ser músico… Bom, até aí, tudo MUITO meigo, certo? Errado!

A grande sacada é que a Disney, distribuidora do filme no Brasil, tomou a decisão radical de mudar o nome da animação (que faz alusão à bisavó de Miguel, figura central na trama) para evitar as piadinhas linguísticas do brasileiro. Em português brasileiro, o aparentemente inofensivo nome Coco tem duas acepções: côco (com o circunflexo na primeira sílaba) é o fruto do coqueiro; no entanto, cocô (com o circunflexo na segunda sílaba) é “o produto final da digestão”. E, mesmo sem pronunciar a palavra e-xa-ta-men-te como o nome da bisavó de Miguel, o som ainda poderia causar constrangimentos, afinal, os “brasileiros brincam com tudo”, segundo a Pixar. Imaginem os memes! Para você que ficou curioso, a avó de Miguel acaba se chamando Lupita no Brasil.

Mais uma prova de que não basta traduzir  tem que fazer sentido na cultura onde a língua é falada! Este recurso é chamado de transcriação, pois é metade tradução, metade criação.  A transcrição é essencial para fazer com o que o filme venda bem e que o filme tenha o mesmo efeito na língua de partida que na língua de chegada.

Segundo o colega e amigo, João Vicente de Paula Júnior, “tradutor é que nem músico: tem que ter bom ouvido”. A meu ver, este cuidado com a eufonia (bom som, som agradável) se torna ainda mais importante em comédias e animações para o público infantil.

Confira o alto astral do filme na música do cantor e compositor Michael Franti: